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Archive for the ‘Confessional’ Category

“Quem é você?”

Começo com a indagação da lagarta para Alice, pq hoje sei que não queria ser outra pessoa. Eu quero outras vidas, mas sendo exatamente quem sou. É complicado tomar uma poção mágica e ser imediatamente reduzido ou aumentado em muito de tamanho… nossas alucinações tão reais. Mas saber quem é faz toda a diferença. Olhar no espelho e ver algo além amplia sua capacidade de análise sobre si mesmo. Nos encaminha aos outros mundos. Que estão dentro. Não signfica que gosto de mim o tempo todo. Muitas vezes me odeio por quase um segundo, mas depois me amo mais, parodiando o pop dos 80… não sei ser diferente do que sou. Mas detesto o cotidiano, a repetição, os mesmos erros e acertos. Por isso essa necessidade danada e esse mal estar permanente e essa incapacidade de lidar com os limites. Eu nunca quis ficar com os pés no chão.

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País das Maravilhas

Não gosto de escrever nos dias em que me sinto estranho em relação ao resto do mundo. Parece carta de reclamação de um produto com defeito ou serviço ruim. Eu acordo com os dias quase sempre ensolarados, numa bela cidade do litoral. Tenho uma família que não me causa grandes transtornos (pelo menos nos últimos tempos), amigos tranquilos e, apesar dos 41 anos recém-completados, “ainda” tenho um emprego na minha área e acho que “ainda” sou respeitado por alguns. E aí? Onde o bicho pega? Vai ver que é isso mesmo! Uma vida morna, num ap super bem decorado, com um carro novo, sexo casual, nenhuma dor de cotovelo… nenhuma grande emoção. O tesão vem com o gim, a vodka e um bom livro ou bom filme. Com minhas músicas de fossa que lembram outros tempos e os sonhos sempre adiados de aventura.  Como Alice, vivo querendo enxergar além do espelho. Como a personagem, vivo tentando seguir algum coelho apressado que me inspire curiosidade e me tire da inércia deste jardim seguro. Eu quero navegar, mas me fecho na falta de coragem de deixar o cais.

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Perder a inocência pode ser algo traumático. Mas também é iniciático. Nos últimos dias tenho pensando muito nos meus ritos pessoais de passagem. Quando tenho certa necessidade de silêncio. Posso continuar completamente normal por fora. Mas por dentro coisas graves acontecem. Muitas vezes coisas até obscuras, dessas que só se revelam em sonhos, na calada da noite. Em dias assim evito o espelho. É que perder a inocência nada tem a ver com a primeira vez. É original a cada troca de pele, a cada nova folhagem. Ganhei de C. um belo exemplar de Alice, ricamente ilustrado. A personagem me fascina a tal ponto que me perco nas páginas do livro constantemente. O meu silêncio (nada aparente) se reflete em aumento do apetite e queda de cabelo. Fico sério quando estou só e ouço muitas músicas esquisitas para a maioria das pessoas. Mas também experimento uma felicidade bem particular. Um estado de espírito quase egoísta, que não se permite compartilhar. Me fecho sem chaves. Me revelo quase inteiro pra mim.

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A máquina do tempo

Manhã de sábado com chuva fina em Macondo. Ouço baixinho Marina Lima (nos bons tempos) cantando “sei que ela terminou, o que eu não comecei…” e, como sempre, viajo no tempo. Minha vida foi sempre assim, desde menino. Tenho a estranha sensação de visitar outras eras, vezemquando. Voltar à cozinha vermelha da minha infância, às muitas salas de aulas que frequentei, ao medo do escuro no meu lindo quarto de dormir com imagens nas paredes (minha mãe fez um belo trabalho naquele quarto, cheio de referências). E isso de alguma forma me justifica. Penso no pavor que eu tenho de perder a  memória. Esquecer certos movimentos e, mais que tudo, certos cheiros. Tenho uma memória olfativa (é assim que se escreve?) impressionante… hoje fico com esse cheiro de chuva evaporando no cimento quente… fico alimentando essa criatura ancestral que descansa em mim e que, quase sempre, mantém meus olhos abertos.

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Não basta só amar…

As coisas mudam. Muitas vezes você alimenta a fantasia (geralmente com belas imagens em technicolor), convive anos e anos com ela e depois vê que já não importa mais. Ela se torna gasta, parte do que é reconhecível em você (que sonha sempre com o inusitado). E quando as fantasias se reduzem às pessoas, aos nossos objetos de desejo? Me sinto cada vez mais à vontade com a realidade. Por isso tenho apostado tanto no presente. Maturidade? Prefiro ver como mudança dos ventos… o fato é que meu personagem anda cada vez mais dependente da solidão. E ai de quem achar que isso é o fim de quem ama…

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Sobre os finais…

Amigo querido,

ainda não consegui chorar sua morte. Talvez porque não tenha entendido que ela aconteceu. Talvez porque não aprendi a lidar com os finais. Lembro que sempre te dizia isso: sou imaturo pra dor. A passagem do tempo ainda não me deu as chaves para abrir certos cantos escuros que ainda me travam o peito. Uma morte como a sua sempre traz aquelas reflexões urgentes que culminam com: -eu sou feliz? E quando acontece numa virada de ano, a dor pessoal ganha outros tons, estimulando tantas fragilidades.

Você não chegou a conhecer esse espaço. Mas foi tão presente no outro, que a carta de hoje para você tem todo o sentido. E é isso o que nos resta: tentar fazer com que nossa permanência nesse mundo tenha, de fato, sentido!

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Curvas e retas

Sim, escrever é um prazer e um desabafo. A chegada de T., em algumas horas, está me deixando tenso (e não há motivos pra isso). Amizade madura taí (“é maduro nosso amor, não moderno. Fruto de alegria e dor, céu-inferno”). Por isso não julgo sua vinda um problema. Os desvãos são todos meus. A curva que toma conta da linha reta. O pior? Não peço compreensão alheia para as minhas incongruências. Sou assim. Ponto.

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