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Em São Paulo

Passagem rápida por São Paulo. Uma semana. Tempo suficiente para fazer um balanço maduro sobre o último ano. Aqui ainda tenho casa, livros, roupas e um bom pedaço da minha história. Mas ainda não é hora de voltar em definitivo. Preciso de mais tempo para colocar em ordem minhas prioridades (?). Interessante como depois de um tempo tudo ganha outra dimensão. O que era dor vira lembrança da dor, a nostalgia deixa de ser um peso e aquelas músicas que faziam chorar hoje soam dramáticas demais. Não tenho a intenção de mudar só pra agradar aos outros. Minhas mudanças tem relação com minhas próprias necessidades. E nesse momento tudo que eu quero e preciso é continuar no meu ritmo. E que siga o descompasso…

“Quem é você?”

Começo com a indagação da lagarta para Alice, pq hoje sei que não queria ser outra pessoa. Eu quero outras vidas, mas sendo exatamente quem sou. É complicado tomar uma poção mágica e ser imediatamente reduzido ou aumentado em muito de tamanho… nossas alucinações tão reais. Mas saber quem é faz toda a diferença. Olhar no espelho e ver algo além amplia sua capacidade de análise sobre si mesmo. Nos encaminha aos outros mundos. Que estão dentro. Não signfica que gosto de mim o tempo todo. Muitas vezes me odeio por quase um segundo, mas depois me amo mais, parodiando o pop dos 80… não sei ser diferente do que sou. Mas detesto o cotidiano, a repetição, os mesmos erros e acertos. Por isso essa necessidade danada e esse mal estar permanente e essa incapacidade de lidar com os limites. Eu nunca quis ficar com os pés no chão.

Talvez seja real II

Mais uma vez o meu lado esquerdo da cama está tomado por livros e revistas. O iPod estacionou nas mesmas músicas e não tenho vontade alguma de acompanhar nada na televisão. Na cabeceira, caneca com chá de maçã com canela, maracujá… erva-cidreira. O telefone não toca (ou pelo menos não ouço do outro lado da linha a voz que eu queria) e as fantasias se multiplicam feito praga em plantação. Me apaixono até por fotografia.  Penso em casamento justamente no momento em que tô mais sozinho. E resisto. Resisto bravamente ao pensamento fácil de abandonar tudo de novo. Meu ap tão querido, minha família tão instável (mas tão minha) e Macondo. Não. Ainda não me sinto bem aqui. Mas será que, atualmente, eu me sentiria bem em algum lugar???

Talvez seja real

E aí não dá pra inventar uma história de amor. Fazer de conta que está apaixonado só pra preencher vazios. Não cola. Os personagens surgem e somem com a mesma rapidez e facilidade. A verdade é que hoje, esse mês, esse ano, eu queria cultivar algo concreto e não apenas memórias. Queria que algo mudasse de fato. Voltar a ser dois, sem a irritação de perder a “liberdade”. O problema é que o tempo passa e com ele as exigências aumentam. Em dias como hoje fico mudo. Fico chato. Tento fórmulas. Mas acabo sem saco pra filmes, livros ou canções. Fico insuportável comigo mesmo e alimento todo tipo de desilusão. Penso no fim e lembro como detesto finais. Mas sei que isso passa… assim espero… e aguardo!

País das Maravilhas

Não gosto de escrever nos dias em que me sinto estranho em relação ao resto do mundo. Parece carta de reclamação de um produto com defeito ou serviço ruim. Eu acordo com os dias quase sempre ensolarados, numa bela cidade do litoral. Tenho uma família que não me causa grandes transtornos (pelo menos nos últimos tempos), amigos tranquilos e, apesar dos 41 anos recém-completados, “ainda” tenho um emprego na minha área e acho que “ainda” sou respeitado por alguns. E aí? Onde o bicho pega? Vai ver que é isso mesmo! Uma vida morna, num ap super bem decorado, com um carro novo, sexo casual, nenhuma dor de cotovelo… nenhuma grande emoção. O tesão vem com o gim, a vodka e um bom livro ou bom filme. Com minhas músicas de fossa que lembram outros tempos e os sonhos sempre adiados de aventura.  Como Alice, vivo querendo enxergar além do espelho. Como a personagem, vivo tentando seguir algum coelho apressado que me inspire curiosidade e me tire da inércia deste jardim seguro. Eu quero navegar, mas me fecho na falta de coragem de deixar o cais.

Perder a inocência pode ser algo traumático. Mas também é iniciático. Nos últimos dias tenho pensando muito nos meus ritos pessoais de passagem. Quando tenho certa necessidade de silêncio. Posso continuar completamente normal por fora. Mas por dentro coisas graves acontecem. Muitas vezes coisas até obscuras, dessas que só se revelam em sonhos, na calada da noite. Em dias assim evito o espelho. É que perder a inocência nada tem a ver com a primeira vez. É original a cada troca de pele, a cada nova folhagem. Ganhei de C. um belo exemplar de Alice, ricamente ilustrado. A personagem me fascina a tal ponto que me perco nas páginas do livro constantemente. O meu silêncio (nada aparente) se reflete em aumento do apetite e queda de cabelo. Fico sério quando estou só e ouço muitas músicas esquisitas para a maioria das pessoas. Mas também experimento uma felicidade bem particular. Um estado de espírito quase egoísta, que não se permite compartilhar. Me fecho sem chaves. Me revelo quase inteiro pra mim.

A máquina do tempo

Manhã de sábado com chuva fina em Macondo. Ouço baixinho Marina Lima (nos bons tempos) cantando “sei que ela terminou, o que eu não comecei…” e, como sempre, viajo no tempo. Minha vida foi sempre assim, desde menino. Tenho a estranha sensação de visitar outras eras, vezemquando. Voltar à cozinha vermelha da minha infância, às muitas salas de aulas que frequentei, ao medo do escuro no meu lindo quarto de dormir com imagens nas paredes (minha mãe fez um belo trabalho naquele quarto, cheio de referências). E isso de alguma forma me justifica. Penso no pavor que eu tenho de perder a  memória. Esquecer certos movimentos e, mais que tudo, certos cheiros. Tenho uma memória olfativa (é assim que se escreve?) impressionante… hoje fico com esse cheiro de chuva evaporando no cimento quente… fico alimentando essa criatura ancestral que descansa em mim e que, quase sempre, mantém meus olhos abertos.